Rota das Especiarias Picantes.

Pica na língua… Enrola-nos a linguagem.

Presenças quase permanentes na mesa dos gastrónomos, as especiarias picantes, são usadas desde as mais remotas civilizações.

Delas tudo se diz, com e sem razão: conservam os alimentos, disfarçam sabores (na idade média, camuflavam putrefações), fazem bem à saúde (“o que arde, cura”), emagrecem, são afrodisíacas, etc., etc.

Certo fica-nos, que picam na língua e são apreciadas. Certo também, que nos enrolam a linguagem.

Nos dias de hoje a mais comum das especiarias picantes é conhecida vulgarmente por pimenta-malagueta (piri piri, chili, jindungo, etc.) e tem o aspeto da imagem abaixo:

Pimenta – Malagueta

O grau de “ardor” das várias espécies da planta é medido em unidades de capsaicina (princípio ativo picante, que tomou o nome a partir de capsicum), existindo uma escala (Escala de Scoville) que classifica os “ardores” entre zero (Pimento ou Pimentão) e 15.000.000 (Capsaicina pura). Para que se entenda melhor e a título de exemplo, o molho tabasco Jalapenho tem entre 600 a 800 unidades, o Habanero Chile entre 100.000 e 350.000, os Piri Piri africanos entre 50.000 e 100.000, havendo variedades que se aproximam de 1.000.000 de unidades de capsaicina (Naga Jolokia).

Mas porque se nos enrola a linguagem? É que o fruto da imagem acima, não é pimenta (uma semente), nem malagueta (uma semente). A língua vai tomando os nomes das especiarias picantes de uso mais antigo, para clarificar o uso e efeito das que, cronologicamente, se lhe seguem.

A pimenta (Piper Nigrum), a malagueta (Afromomum Melegueta) e a chamada pimenta-malagueta ou chili (Capsicum Frutescens L.) são de famílias botânicas diferentes e originárias de continentes diferentes, tendo chegado aos mercados de consumo, em períodos, igualmente diferentes, pela ordem apresentada.

Pimenta

A Pimenta Preta (Piper Nigrum), que hoje se comercializa também com as colorações branca, verde e vermelha (diferentes graus de maturação e tratamento), chegou à Europa nos períodos da civilização grega e romana, vindo de uso em civilizações anteriores. A comercialização era efetuada basicamente sob a cor preta (Nigrum) e consta com frequência dos manifestos de carga, do porto de Alexandria, antes da era cristã. Ela é originária da Ásia, da família Piperaceae, sendo a semente de uma trepadeira que nos era trazida, por rotas terrestres e marítimas (Mar Vermelho), desde a mais remota antiguidade. Também é conhecida por pimenta redonda ou pimenta do reino (No Brasil, por ser levada de Portugal).

Malagueta

A Malagueta (Afromomum Melegueta), também conhecida como pimenta da Guiné ou grão-do-paraíso, é a semente de uma planta da família do gengibre (Zingiberacaea) que chegou à Europa pela mão dos Portugueses. Ela é originária de África e consta dos manifestos de carga dos navios portugueses a partir de meados do século XV. Tratando-se de um sucedâneo da pimenta asiática (de que tomou o nome, na designação pimenta-da-guiné), foi altamente valorizada e o seu comércio, muito significativo, mas de curta duração (com o aparecimento do capsicum). A zona de recolha estendia-se por uma região da costa ocidental africana, mais alargada, a norte e a sul, do que o atual Golfo da Guiné. Hoje quase em desuso, pode ser adquirida nas melhores casas de produtos “gourmet”.

Por curiosidade diremos que o Piri-piri (Pili Pili, em língua Bantu) que o capsicum também assumiu como uma das suas designações, é um fruto vermelho e pouco picante (com a forma de baga), encontrado igualmente pelos portugueses, agora a sul do Golfo da Guiné, com o aspeto e “ardor” da Pimenta-Biquinho (senão a mesma planta), muito cultivada e apreciada no Brasil.

Pimenta-Biquinho

Finalmente a pimenta-malagueta (Capsicum Frutescens), descoberta na América do sul e comercializada a partir do início do século XVI, que os portugueses, na sua ânsia por especiarias, rapidamente espalharam pelo mundo (uma migração fácil). É um fruto de uma planta da família das Solanaceae (como o tomate e a batata), a “especiaria” picante por excelência (nos nossos dias) e que, de todas as suas antecessoras, tomou o nome, pimenta – malagueta – piri piri, enrolando-nos a linguagem.

Filipe da Silva, Setembro 2011

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2 respostas a Rota das Especiarias Picantes.

  1. Maria Simões diz:

    Em certas pessoas, as especiarias fazem-nas voar, não se enrolam nada, nem na linguagem.:-)
    É que depois desta leitura que me fez viajar no tempo e no espaço, já olho para as pimentinhas de forma diferente, com outro respeito acrescido…outro paladar.

  2. jjfilipe diz:

    Desejo-te, bons apetites e excelentes viagens. 🙂

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