Comer é um acto cultural


Diz-me o que comes. Dir-te-ei quem és.

Comer é um acto cultural cujas manifestações são o escopo da gastronomia. Cozinhar, uma arte de onde a criatividade não se deve ausentar.

A expressão “Nem só de pão vive o Homem”, significa que todas as questões que requerem o mérito da atenção humana procuram, no mínimo, ombrear com o “pão metafórico” e necessidade vital de todos os seres vivos.

Comer é um acto cultural. E como nos aculturamos, primeiro dentro da família onde nascemos, seguidamente dentro da sociedade em que vivemos, é fácil entender que, no que à gastronomia diz respeito, usemos recorrentemente, como bitola de alta qualidade alimentar, a educação familiar, usando expressões como: “Tão bom quanto o que a minha mãe fazia.”, ou, ainda, “Parece a receita da minha avó.”

A história do Homem é tanto a história das vias de comunicação, quanto a história da procura de sustento (alimentação). Quer nas primordiais migrações humanas, quer em posteriores grandes migrações, esteve sempre presente o deslocar da insustentabilidade para a sustentabilidade alimentar. Ainda nos dias de hoje o Homem migra, na procura do “pão metafórico”, na procura do “sustento” da prole.

No passado, foi sobre os grandes alfobres de alimentos, de colecta directa ou produção primária, que se estabeleceram e se multiplicaram as colónias humanas, usufruindo condições ambientais propícias. E sobre essas dádivas locais de alimentos se consolidaram (sedentarizaram), cresceram de forma próspera, desenvolveram conhecimento e cultura, adaptando e adoptando usos culinários específicos às novas variedades de alimentos e concretizando, com o rodar dos tempos, mutações genéticas e culturais, a que os novos usos e hábitos alimentares não puderam ser estranhos.

É esse património cultural, de natureza eminentemente local, que marca a diferença na igualdade do género humano. Todos diferentes e todos iguais é o Paradoxo Humano.

É esta diferença, feita tradição, no que respeita ao aproveitamento e tratamento do básico e vital alimento, que compete às Confrarias Gastronómicas preservar.

A produção de comida fomentou e condicionou a cultura, o acto de comer e o que se come, condicionam a capacidade intelectual e o desempenho cultural. Comida e cultura, entendem-se, de forma interdependente.

Filipe da Silva
Confraria dos Gastrónomos do Algarve
2012-06-11

CEUCO 2012 Tartu – Estonia
Food is the Carrier of Cultural Values

 

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